Não me deixam em paz, quanto mais fundo escavo o meu buraco mais eles estão perto de mim, dentro de mim. Odeio o meu cheiro, estou morto por dentro e o meu corpo todo está impregnado desse cheiro a podre. Mesmo que alguém se quisesse aproximar de mim agora, de certeza de que iriam fugir deste fedor, como todos os outros... todos fogem, embora não saibam exactamente do quê. Não os posso censurar, sempre arranjei maneiras diferentes de fugir de mim mas nenhuma resultou, não da maneira que eu queria. Acho que nem depois de morto vou conseguir fugir de mim próprio. Esta semana, tal como o próprio tempo, passa a correr. Mesmo com a cabeça cheia, mesmo com esta pressão dentro e fora de mim, à minha volta, não consigo parar para respirar, parar para pensar. Ignorar a merda das vozes.
CHEGA DE VOZES NA PUTA DA CABEÇA!!
Chega de toda esta merda, parem o tempo, parem-no de uma vez. Ou então andem com ele duma vez só até ser apenas pó a vaguear ao sabor do vento. É o que já sou. Digo a mim próprio cheio de coragem de que estou orgulhosamente só, fechado nesta prisão feita de carne e ossos, que foi o destino, os meus pais, os fantasmas, qualquer merda que me colocou aqui e que por enquanto não há saída. Que vou ter de esperar até que a última dívida seja paga, para que seja livre. Que possa ter dinheiro para comprar a merda de um bilhete de comboio para algum sítio longe sem estar preocupado de esse dinheiro não vai faltar para comprar o pão para o jantar. Não há liberdade à vista e a pena é perpétua. Sem visitas, porque este preso é alguém que ninguém quer visitar, fechado numa rocha qualquer funda, onde à noite entra a água e os ratos para roerem o pouco de carne que restam nos seus ossos. Os ratos são os meus únicos amigos, os únicos que não me abandonam mesmo quando eu os afasto de mim. Eles vão estar sempre aqui, à minha volta. Onde estão todos os outros? 8-17,8-17,8-17 todos os dias, dia após dia e no fim de semana, quando supostamente seria a liberdade, não há liberdade para ser gozada. Não há nada. Apenas a espera pelas 8-17,8-17,8-17 até que me canse, até que a corda parta pelo o lado mais fraco, até que a corda me parta a mim. E não vai estar ninguém para colar os pedaços. Cinzas, todos os meus amigos são cinzas que me queimam pela sua ausência. Que se fodam todos, nunca tive amigos verdadeiros de qualquer maneira.