Um telefonema foi o que bastou para o inferno ficar bem presente. As coisas estão para lá de negras com as dívidas em atraso e em breve, se não for feito nada, se não for dado um sinal de que se está a fazer um esforço para se pagar, começam as penhoras. Não sei quanto tempo vou aguentar mais isto, ver a minha mãe a chorar pelo sentimento de impotência, o mesmo que eu tenho, se bem que ela continua a culpar-se por nós termos chegado a esta situação. Eu odeio que ela diga isso, não adianta e não resolve nada. Abraçar o desespero não vai fazer com que tudo se resolva mas não posso criticar quem o faço quando eu o faço perante situações bem menos graves. Tentamos a todo o custo manter o nosso mundo equilibrado mas há sempre algo que tem de aparecer para nos abanar a vida. Senti muita raiva e ódio hoje. Não só por causa desta situação mas por uma coisa que aconteceu enquanto eu via a minha mãe a chorar, incapaz de dizer o quer que seja por saber que não havia nada que pudesse dizer que lhe desse esperança. Esperança também é algo que não sei dar... Estava a vê-la a chorar, na sala e vejo a porta que dá para os quartos a abrir-se lentamente. Uma mulher ria-se histericamente, com uma risada que me arrepiava a alma por dentro. Olhei para a minha mãe mas ela continuava a chorar. Saí bruscamente em direcção à mulher mas ela foge de mim, troça de mim enquanto foge para o meu quarto, fechando a porta atrás de si. Quando a abro furiosamente, o quarto estava vazio. Não consigo fazer mais nada senão sentar-me na cama e chorar. A minha mãe veio atrás de mim e pede-me desculpa. Diz-me mais uma vez que eu não merecia estar a passar por isto. Como dizer-lhe a ela de que era ela que não merecia estar a passar por isto. Não queria que ela pensasse de que estava zangado com ela, era a última coisa que queria que ela pensasse. Acabei por não lhe dizer nada.
Tuesday, April 29, 2008
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