Isto realmente está a fazer-me bem. A solidão que seria de esperar num momento destes até que não é difícil de suportar. Apesar de nos últimos anos ter andado bastante tempo só, havia sempre uma espécie de pressão sobre mim, uma crescente insatisfação. Disse hoje isso à doutora. Que não estava a sentir essa pressão, essa insatisfação com a minha vida. Apenas paz. Ela hoje tentou conhecer mais um pouco sobre mim, de certeza para conhecer as minhas motivações para eu ter... para o que aconteceu. Acho que já me cansei de dizer, de me ouvir dizer, que não fiz nada, que não me lembro do que aconteceu. Mas a doutora levou-me a concordar que realmente posso ter feito algo, que não me recordo. Disse também que tínhamos de olhar para o meu passado para tentar perceber o que é que possa ter acontecido. Que poderia ter passado por algum acontecimento tão traumático que o meu consciente possa ter-se protegido automaticamente e apagado essas memórias traumáticas. Não estou a ver o que possa ser, a única agitação que tenho tido na minha vida ultimamente foi mesmo o facto de ter sonhos estranhos com uma mulher que não conheço mas juro sentir que conheço, este caderno aparecer escrito e não saber quem anda a escrever nele sabendo que dificilmente ninguém na minha família o iria fazer. Para além do mais, nem é escrita, apenas riscos sem sentido que não consigo entender. Essa parte não lhe contei, acho que aí é que ela me punha numa camisa de forças. Talvez eu consiga chegar a alguma conclusão se a ajudar a perceber o que se passou. Talvez esteja associado com a minha crescente necessidade de ficar só de uns anos para cá.
Logo se vê. Não sei se sou eu ou os comprimidos a dizer isto, mas... logo se vê.
Logo se vê. Não sei se sou eu ou os comprimidos a dizer isto, mas... logo se vê.
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