Friday, June 20, 2008

20 de Junho de 2008

Mortos, todos mortos à minha volta. Não os consigo distinguir dos vivos. Não há vivos. Estão todos mortos. Não consegui aguentar mais de 3 horas no trabalho. Sangue por todo o lado e eles a entrarem e a saírem do meu corpo. Agora sei porque é que tenho as brancas ou melhor, já as consigo perceber. As brancas da minha memória foram todos os momentos em que alguém viveu no meu corpo. Os mortos, as vozes, tudo voltou. Sempre as mesmas acusações, sempre o mesmo ódio. Não consigo olhar para a cara das pessoas sem que a sua carne apodreça. Aquela mulher nojenta, ela voltou, humilhou-me sem parar. E eu tentei aguentar, o máximo que pude, eu tentei. Explodi. Comecei a gritar, histericamente, para me deixarem em paz. Caí no chão e eles debruçaram-se sobre mim. Tentaram agarrar-me, tentaram-me afogar. Eles querem matar-me. Fugi de lá. Corri até não conseguir mais. Só me recordo de chegar à estação completamente de rastos com o corpo todo dorido, a não conseguir respirar, não sei se dos nervos se de estar sem fôlego. Quando olhei em volta, estava rodeado por eles todos. E o mundo silenciou, nem os comboios faziam barulho. Nada. Eles apenas me olharam. Até que o mundo explodiram e eles recomeçaram a gritar comigo, a querer tocar-me, a querer violar-me.
Foi neste momento que caí. Recordo-me de muito pouco, apenas que fui carregado para dentro do comboio que chegou. Fui carregado por eles. Sentaram-me no banco, e eles sentaram-se ao longo de toda a carruagem. Ocuparam todos os bancos, mesmo aqueles que já estavam ocupados. Ninguém os viu, apenas eu. A mulher nojenta estava à minha frente, a sorrir-me e a provocar mas eu já não conseguia ver nada. Não tinha forças para nada. Até que desmaiei. Acordei há 30 minutos em casa. Não sei como vim aqui parar e nem sequer sei o que aconteceu hoje. Preciso de ajuda. Mas eu não consigo falar. Pela primeira vez, quero falar e não consigo. Ajuda, por favor. Preciso de ajuda... alguém...

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