Continuo cego e surdo mas mesmo assim continuo a ouvir e a ouvi-los. Interminavelmente, um círculo vicioso que se prolonga até ao infinito. Eu não estou vivo mas ainda não morri. É por isso que não consigo morrer, eu não posso morrer embora eles digam para me matar. Eles, quem? Quem são eles? Quem quer que eu morra? Eles estão dentro de mim. Disse à minha mãe que estava possuído pelo diabo e por todos os seus demónios. Mil demónios dentro de mim e todos gritam a minha morte, morre morre morre. Mas mesmo assim, eu não consigo morrer. Ou não quero? Eles sempre estiveram cá, desde que nasci, possivelmente mesmo antes disso. A infectar esta família, a torturar. Agora percebo o pavor da minha avó, o respeito da minha mãe. Mas nenhuma delas se deixou quebrar, apenas eu. O Fraco. Estou cansado demais para ter medo e não consigo ter respeito por nada ultimamente. Acho que chegou a hora de abraçar as vozes, chega de ter medo do futuro, preocupado ou convencido de que posso ter uma vida normal ou sequer de que sou alguém normal. Estou marcado para ser um festim para estes caralhos todos que não me largam. Rasgo a minha pele e corto a minha carne mas eles continuam cá. As bruxas gritam e mandam-me embora porque sabem que não há salvação para mim. Sou o Condenado. Porquê tanto tempo para morrer? Seria um alívio para todos, para os poucos que ainda se dão ao trabalho de pensar em mim. O meu pai não deve ser um deles, sempre fui menos que merda para ele. A insignificância que nunca estava atento, o palhaço que não vive no mundo da lua. Que alívio teria sido para ele se tivesse nascido lá e explodido no vácuo do espaço. O seu ar de desprezo sempre me disse que era um coitadinho que deixou a força na cona da mãe como ele sempre disse perante as minhas fraquezas. Sim, sem dúvida que deixarei de ser uma vergonha e um peso na sua mente, não ter de pensar na merda de fracasso que gerou. Se ele soubesse que o que odeio mais em mim é aquilo que identifico como sendo dele. Se ele soubesse como sonho um dia cuspir-lhe na cara todo o ódio que tenho por ele, o ódio que ele criou de mim, o monstro que ele criou dentro de mim. Nunca vai saber, sou cobarde demais para lhe dizer o quer que seja. Sou a maior prova viva que o desprezo que ele tem por mim tem razão de ser. É irónico, com isto tudo, com as penhoras, com as dívidas, as acções em tribunal, o resultado de uma vida inteira destinada ao fracasso, esteja dependente do incapaz do filho. Dá que rir, mas mesmo assim, não passo de um monte de merda, embora agora não seja mais frequente nas conversas. Pelo menos à minha frente. E mesmo que fosse, já não estou cá mais para ouvir. Nem para ele nem para ninguém. O meu corpo há-de estar a apodrecer debaixo da terra e ele ainda vai ficar surpreendido quando a minha mãe lhe disser que eu não gostava de feijão ou de grão. Talvez aí o fantasma seja eu e o atormente até ao final da sua vida, como ele me atormentou a mim quando eu estava vivo. Até posso tentar, mas se ele não ligou um caralho quando estava vivo, porque é que ia começar quando eu estiver morto?
Wednesday, June 25, 2008
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