Hoje finalmente resolvi que quero ouvir a gravação que fiz... já nem me recordo quando é que foi. Estou cansado de ouvir vozes, estou cansado de me sentir como um estranho no meu corpo, na minha vida. Quando me disseram que tinha tentado me suicidar, tive vontade de rir, porque pensava que estavam a gozar comigo. Estava a conseguir ultrupassar o que se tinha passado com a Susana, estava razoavelmente satisfeito com a minha situação profissional. Não tinha motivos para tentar me matar. Não tinha. Não sei se será uma anedota do destino mas desde essa altura tenho andado a coleccionar motivos para o fazer. Estou muito diferente daquela pessoa optimista, céptica e calma. Vozes na minha cabeça, constantes atropelos da minha tranquilidade. E alterno entre os momentos em que digo a mim próprio que eu sou o culpado ou que sou apenas um peão nas mãos de alguém. Desde da noite de ontem que comecei a sentir isto outra vez, depois de algum tempo de descanso. É uma característica minha que odeio. Nunca tomo uma decisão. Sou incapaz de tomar decisões. Faz-me lembrar anos atrás, no meu emprego, no meu primeiro emprego. O responsável pelo sector de informática... engenheiro... não me recordo do nome dele... disse-me que eu nunca sabia nada. Isto por estar constantemente a responder não sei. Na altura não levei aquilo a sério, mas agora ao lembrar-me desse momento, reparo em como ele tinha razão. A resposta "não sei" é a mais comum em mim, é sem dúvida o que mais respondo a todas as questões que me fazem. "Não sei" é a resposta a todas as perguntas que eu próprio faço. Eu nunca consigo passar disso. O engenheiro foi a primeira pessoa que me disse isso. Primeira e única pelo menos que mo disse directamente e mesmo assim não esqueço as palavras com que ele me deixou quando saí da empresa: "Tem valor para fazer tudo o que se propõe, vai ter sucesso porque tem capacidades para isso".
Será que ele iria ficar desiludido por me ver onde estou agora? Se eu lhe contasse aquilo que tenho cá dentro, será que ele teria chegado à conclusão de que se tinha enganado a meu respeito. A indefinição que parece ter crescido tanto desde aqueles dias. Crescido de forma criminosa, porque eu acreditei que estava tudo bem, que estava tudo a correr bem no caminho que escolhi. Cada dia que passa, cada noite que não durmo chego à conclusão que eu não escolhi nada, apenas me deixei levar por o que alguém decidiu por mim. A única pista que tenho para saber quem esse alguém é pode ser a gravação que fiz. Andei o dia todo a lutar contra mim para saber o que fazer, o que tenho de fazer. Uma parte de mim dizia que não tinha qualquer valor a gravação que tinha feito, de que apenas provava que eu precisava de ajuda profissional. De que eu preciso de ajuda porque não estou conseguir aguentar sozinho. Que esse adiamento só ia fazer com que tudo fosse mais difícil. Mas outra parte de mim disse-me ao mesmo tempo de que a resposta poderia estar naquele leitor de mp3. Vou deitar-me e ouvir o que ficou gravado, se é que ficou alguma coisa.
Será que ele iria ficar desiludido por me ver onde estou agora? Se eu lhe contasse aquilo que tenho cá dentro, será que ele teria chegado à conclusão de que se tinha enganado a meu respeito. A indefinição que parece ter crescido tanto desde aqueles dias. Crescido de forma criminosa, porque eu acreditei que estava tudo bem, que estava tudo a correr bem no caminho que escolhi. Cada dia que passa, cada noite que não durmo chego à conclusão que eu não escolhi nada, apenas me deixei levar por o que alguém decidiu por mim. A única pista que tenho para saber quem esse alguém é pode ser a gravação que fiz. Andei o dia todo a lutar contra mim para saber o que fazer, o que tenho de fazer. Uma parte de mim dizia que não tinha qualquer valor a gravação que tinha feito, de que apenas provava que eu precisava de ajuda profissional. De que eu preciso de ajuda porque não estou conseguir aguentar sozinho. Que esse adiamento só ia fazer com que tudo fosse mais difícil. Mas outra parte de mim disse-me ao mesmo tempo de que a resposta poderia estar naquele leitor de mp3. Vou deitar-me e ouvir o que ficou gravado, se é que ficou alguma coisa.
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