Sunday, February 10, 2008

10 de Fevereiro de 2008

Estas palavras não me sairam da cabeça todo o dia. Ao contrário do que pensava a gravação não foi além de poucos minutos. Gravou duas horas, mas a conversa em si durou apenas alguns minutos. E a voz, esta voz não é a minha, mas eu conheço-a, é-me extremamente familiar.

- Quem és tu?
- Eu sou o escondido.
- Mas como te chamas?
- Eu não tenho nome, eu sou o escondido. Estou aqui contra a minha vontade.
- Contra a tua vontade porquê?
- Eu não devo ver o sol, eles não me deixam ver o sol. Gostam de estar nas sombras. Desejam o poder, mas têm medo dele. Temem-no.
- Quem, quem é que tem medo?
- Eles. Eles. Eu. Não quero o poder. Eu só quero paz, só quero a paz.
- Quantos são vocês?
- Sete.
- Há quanto tempo estão neste corpo?
- Há 27 anos. O corpo é nosso. Lutamos todos por ele, mas apenas um consegue vencer. No final, estamos todos nas sombras, continuamos todos nas sombras. E todos queremos chegar ao sol. Engraçado...

E não consigo ouvir ou pelo menos perceber algo. Apenas a mulher a dizer repetidamente "o troco, olhe o troco" mas de resto apenas o som das pessoas, dos carros, dos comboios. Acho que consigo ter uma ideia muito clara do que a minha mãe ouviu no outro dia quando aparentemente tive aquele ataque na bruxa. Não sei se vou ter coragem para lhe contar ou sequer mostrar isto. O melhor será apagar, é coisa para justificar o meu internamento se bem que ninguém iria reconhecer a minha voz. Não sei se foi por causa disso ou não mas o que é certo, é que senti a besta dentro de mim outra vez, desta vez nas entranhas. Nunca senti tamanha dor, fui a correr para a casa de banho três vezes consecutivas... a uma certa altura não sei o que tinha mais para despejar, cheguei a pensar que estava a deitar fora os meus orgãos vitais. Embora me tenha sentido aliviado depois, não sei quanto tempo mais vou aguentar estes... alivios. Mais um fim de semana sem qualquer tipo de descanso com mais uma semana à minha frente.

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