Friday, May 23, 2008

22 de Maio de 2008

Acho que agora percebo porque é que as vozes se calaram. Elas não se calaram. Elas deixaram de estar no exterior. Por isso é que eu não as ouço. Elas estão dentro de mim. Controlam as minhas acções. Antes não conseguia controlar a maneira como me afectavam. Agora não consigo controlar a maneira como eu afecto os outros. Ia matando o meu sobrinho hoje. A cada resposta que ele dava, cada vez que ele me contrariava, sentia o fogo a queimar dentro de mim. Algo a dizer-me "castiga-o", "castiga-o". Levantei-o no ar enquanto lhe apertava o pescoço. Eu desejava vê-lo a sofrer. Naquele momento queria vê-lo sofrer, queria vê-lo chorar. Castigo era só que pensava. Até que vejo que ele não luta mais e a menina dos seus olhos a desaparecer. Ganho controle de mim próprio e agarro-me a ele a chorar. Quando a minha mãe chegou, estávamos os dois agarrados um ao outro a chorar. Saí dali e fechei-me no meu quarto. Mais um bocadinho e tinha assassinado o filho do meu irmão. E essa ideia não me sai da cabeça. Tal como que se o meu sobrinho é a oportunidade de me redimir do erro que cometi com a minha avó, então acho que estou a matá-la aos poucos... outra vez.

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