Uma coisa que todo o isolamento que tenho vindo a criar nestes últimos dois anos e meio fez foi dar valor a pequenos momentos. Pequenos reencontros, partilhas. Pequenas coisas. Quando era criança e adolescente, tudo tinha de ser grande, tudo tinha de ser especial e grande parte das coisas não as gozei por não corresponderem a expectativas criadas. Tornei-me o inverso. Rotinas, isolamento. E quando a Susana roubou o ar de mim, fui ainda mais longe. Mais fundo no buraco que estava a escavar. Longe, fundo. Quanto mais fundo estava, mais longe queria ir. Não chegava porque eu queria bater mesmo no fundo. De tal maneira que me desliguei de mim próprio. Hoje tenho perfeita consciência disso. Eu não queria ser mais eu, não queria existir porque tudo o que tinha conseguido era ser alguém que não conseguia estar com pessoas. Alguém que tinha conseguido matar o amor que outra pessoa dizia sentir. Esta lucidez não sei se é provocada pelo álcool ou por aquilo que senti hoje durante o dia mas... antes de pegar nesta caneta para escrever fixei o meu olhar no espelho e não reconheci aquela cara. Não reconheci as minhas feições, não reconheço o meu corpo. E não é pelo facto de andar a emagrecer por causa da falta de apetite ou de vomitar. Não reconheço o ser. Não sei que é. Eu sei quem eu sou, mas aquele que está no espelho não o reconheço mais. Aquele que eu sou está contra tudo aquilo que fez a Susana apaixonar-se por alguém que detestava. Aquilo que a fez fugir de mim. Foi bom o convívio com o pessoal do grupo, foi bom sentir as mesmas fragilidades, os mesmos problemas que eu tenho. Mas o único cobarde sou eu, o único que desistiu de si em prol do cadáver que se prostra em frente ao espelho sou eu. Todos tentam seguir para a frente. Álcool, drogas ou simplesmente... continuar a tentar viver. Porque é que eu desisti de mim? Não entendo. E o pior é que se eu não me controlar adormeço outra vez. Cedo o meu lugar de bom grado ao monstro que está no espelho, que me faz vomitar todas as manhãs e que me impede de comer e dormir.
Talvez eu precise de ouvir mais vezes os desabafos das outras pessoas, pelo menos dar-lhes essa oportunidade. Dá-me uma lucidez que nem eu sabia que tinha.
Talvez eu precise de ouvir mais vezes os desabafos das outras pessoas, pelo menos dar-lhes essa oportunidade. Dá-me uma lucidez que nem eu sabia que tinha.
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