Monday, January 7, 2008

7 de Janeiro de 2008

De manhã, entre tosse e vómitos e a luta contra os dois, tive uma sensação, uma experiência para lá de estranha. Voltei ao passado. Estava na cozinha, com os meus 4 ou 5 anos e observava a minha mãe. Sei que era o primeiro dia em que iria para o infantário ou para a escola. Não me recordo bem. Eu não tinha medo, estava triste mas não tinha medo. Acho que era por deixar a minha mãe, o que ainda é mais estranho já que eu praticamente fui criado com os meus avós, só via a minha mãe durante os fins de semana. Mas mesmo assim tive aquela sensação de perda, de abandono. Senti isso tão bem que eu estive lá. Na cozinha, há espera que alguém me fosse levar para outro lado qualquer numa manhã de 84 ou 85. Não sei o porquê de sentir isto hoje, ter esta vivência tão real do meu passado. Só sei que não é totalmente despropositado. Desde que a Susana acabou comigo, refugiei-me em mim próprio, disse a mim mesmo que não precisava de ninguém e afastei todos. Todos menos uma. Ela nunca saiu do meu lado, mesmo estando eu cansado demais para me aperceber disso. E agora, quando todos já se foram embora, ela continua a ser a única pessoa de quem sinto falta, quem eu procuro para me salvar. E custa-me ver o olhar de impotência na cara dela, quando ela não pode fazer nada, como ultimamente. Como quando acordei no hospital.
Uma das lembranças mais queridas que tenho da minha avó materna era quando ela rezava em mim, para me proteger do mau olhado e dos maus fluídos. Não tinha idade para perceber o porquê de ela querer fazer aquilo mas foi algo que sempre me sentiu bem. Andei com estas memórias todas da minha infância a passar-me em frente dos olhos o dia inteiro - estou para ver a merda que fiz a inserir os dados das chamadas no sistema - e quando cheguei a casa, sem pensar, pedi à minha mãe que rezasse em mim. Ela ficou surpreendida e disse que me ia rezar quando me fosse deitar.
Embora a magia do mundo tenha desaparecido depois daquele dia em que saí de casa levado pelo meu pai para o infantário, hoje vou ter um bocado dessa magia de volta.

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