Saturday, January 19, 2008

18 de Janeiro de 2008

A cada dia que passa, sinto-me cada vez mais desperto, mais atento ao que se passa à minha volta. As vozes, durante a noite, já mal as ouço. A sensação de não estar só no quarto também está a desaparecer, embora continue a dormir mal. Ando com estes... fantasmas há tanto tempo em cima de mim que agora que estou a deixar de os sentir sinto-me algo estranho. E confuso. Afinal, não fiz nada para isso, pelo menos acho que não fiz nada para isso... Até mesmo as dificuldades no emprego parece que estão a diminuir, embora muitas vezes os meus colegas olhem para mim como se estivesse a aprender as coisas pela segunda vez. De certa maneira até estou mas não lhes posso dizer isso. Invento uma desculpa de que já não me lembrava ou algo parecido. O pior é a sensação de ver coisas feitas por mim e não ter a miníma lembrança de que as fiz. E isso causa-me um pavor enorme. A maior luta que tenho tido é comigo mesmo, sinto-me como se tivesse voltado à escola, ao primeiro dia, quando era tudo diferente e muito, muito assutador. Também nunca mais vi aquela rapariga que se aproximou de mim, não sei o que é feito dela mas estou tão inseguro de mim que não tenho a certeza de que a passagem dela pela minha vida não tenha sido unicamente na minha cabeça. Este despertar também me trouxe de volta aos problemas familiares, as coisas estão cada vez piores e é difícil olhar para os meus pais e perceber de que apesar de tentarem disfarçar, eles estão a ser consumidos por dentro. Principalmente a minha mãe. Felizmente consegui fazer com que ela não se preocupasse tanto comigo mas continuo a estar de mãos atadas em relação a isto. As contas começam a juntar-se e a situação não tem melhoras visíveis. Tudo isto revolta-me profundamente e dá-me vontade de partir e não mais voltar, nem sequer olhar para trás. E pensando bem nisto, pode ter sido uma das maiores motivações para renunciar a viver em mim. Talvez todos nós sejamos culpados por estas situações por muito que eu queira culpar apenas uma só pessoa. Antes de ter nascido, o ar de maldição sempre esteve sobre esta família. O facto de termos mais bens materiais, mais merdas que não servem para nada, acompanha o aumento da dimensão dos problemas. As memórias que tenho da minha avó sempre foi de muita superstição. Ela tinha um medo mortal dos mortos e via coisas à noite. Nunca levei isso a sério e muito provavelmente pelo facto de me meter raiva todos os receios que ela tinha. Dou por mim com o mesmo tipo de azares, sozinho e a enfrentar medos de que nem sabia de que existam dentro de mim, poderando não ter tudo uma causa sobrenatural. A vida é engraçada pela maneira como nos põe de frente com os julgamentos que fizemos no passado.

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