Tuesday, January 1, 2008

31 de Dezembro de 2007

Depois de fechar este caderno, resolvi pegar num livro para ver se o sono chegava mais depressa, coisa que não resultou muito bem porque estive constantemente a tossir. Parece que a minha tosse não me impediu só a mim de dormir. A minha mãe apareceu-me no meu quarto preocupada comigo. Pegou numa máquina de aerossóis que ela utiliza no meu sobrinho para ver se a tosse acalmava. Aquele olhar dela, acho que nunca a tinha visto assim. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto mas ela nada dizia. Eu disse-lhe repetidamente para ela não estar assim, que era apenas tosse, que passava. Não sei se era da tosse, não sei se era tudo o que tenho demonstrado nos últimos tempos... isso simplesmente não a acalmou. Acabou por dormir ao meu lado, como quando era criança. De alguma forma acho que isso a tranquilizou, sentir de que com a sua presença estava a proteger-me. Coincidência ou não, dormi bem, embora tenha dormido pouco. Sinto por vezes que a minha mãe tem tanto amor por como medo. Medo de que eu efectivamente perca o meu rumo, sinto isso e essa é a razão pela qual eu não falo mais com ela. A última vez que o fiz sei que a magoei. Fiz a sentir totalmente impotente de poder fazer algo para mim. Vou ser sempre o menino pequeno dela, vou ser sempre a razão de ela viver. Não deveria mas é o que acontece. Desde essa altura jurei a mim próprio tentar não o fazer. Iria suportar tudo dentro de mim. Acho que isso ainda fez com que me afastasse mais dela, mas ela deu-me espaço. Ela sempre me deu tanto para tão pouco que lhe devolvi. Depois de amanhã vou voltar ao trabalho e vou entrar novamente no ritmo de todos dias de manhã lutar para levantar da cama como se tivesse de me convencer a mim próprio a ir ao meu funeral. E o mais importante, esconder isto de todos os outros. Fazer o meu melhor sorriso e continuar. Não pode ser de outra maneira, não dá. Por muitas bruxas que vá, por muitos comprimidos que tome, as contas vão continuar a cair. Mês após mês.
Acho que só queria prolongar este final de ano por tempo indeterminado. Nunca foi tão pacífico para mim. Mas também o antes e depois nunca foi tão atribulado.

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