Não demorou muito para que o futuro que adivinhava negro se tornasse realidade. E a realidade é bem mais difícil de fugir do que previsões pessimistas. Empréstimos, desemprego, dívidas, azar. Há muito tempo que estas palavras fazem parte da nossa família, já deveria estar habituado e temo que começo a ficar mesmo. Não adianta fazer nada, sempre que as coisas parece que estão a tomar um rumo no que diz respeito às finanças desta família, surge mais um acontecimento surpresa e volta tudo à estaca zero. Não. Pior. Ainda se consegue retroceder a estaca zero. Os prazos são implacáveis e não adianta chorar que isso não vai adiar absolutamente nada. E mesmo que adiasse. Mais tarde iria se passar o mesmo embora seja preferível mais tarde do que mais cedo. Não me restam muitas alternativas, a minha família não é muito numerosa e não tenho amigos ricos a quem possa recorrer. Provavelmente vou ter de pedir outro empréstimo para tapar o buraco. Outro buraco... começo a não ter membros suficientes para tapar todos os buracos.
Por muito que tente me abstrair, de tentar ser egoísta ao ponto de pensar que o problema não é meu, isto não me sai da cabeça. Não me saiu da cabeça durante todo o dia. Nem que escreva em todas as folhas deste caderno isso vai acontecer. Nem que fale com quinhentas pessoas, conhecidos, amigos e desconhecidos. A preocupação vai ficar cá. O estado de desespero que planos destroçados assentes em sonhos traz continua a marcar a minha vida e tão cedo não me vou livrar disto. Onde é que eu vou arranjar dinheiro até o final do mês para pagar a prestação? Como é que o vou fazer? Será que o consigo fazer legalmente? Quando a recompensa por se agir da melhor maneira é esta, será isto um sinal para tentar a outra face da moeda? Mais perguntas.
Merda.
Preciso de dinheiro.
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