O meu pai conseguiu arranjar um emprego. Pelo menos, espero que se consiga manter neste por mais algum tempo mas como dizia o outro, quando o pobre deixa cair o pão com manteiga, a manteiga fica sempre para baixo. Sempre considerei isto uma injustiça, de ver sempre a minha família a debater-se com os mesmos problemas, a não ter dinheiro, sequer, para comer. Na adolescência confesso que me custou mais. E sem dúvida que todas essas dificuldades todas moldaram a minha personalidade e fizeram, penso eu, que desse valor ao que realmente é importante. É certo que a saturação destes problemas fazem com que facilmente perca a orientação, mas realmente algo mudou. Depois de tudo o que passei há certas coisas que já não me afectam como me afectavam. Provavelmente vou ter de fazer outro empréstimo (vá se lá saber como é que os bancos vão aprovar isso, mas o mais certo é também acabar por contrair empréstimo com um mafioso qualquer que na falta de dinheiro faça com que pague com o corpo), provavelmente não vou ter dinheiro para o pagar. Estou-me completamente a cagar. Penhorem-me o corpo, leiloem-me os órgãos para uma máfia qualquer de leste. As preocupações com o dinheiro acabaram. Sempre preocupado com o dinheiro, em tentar poupar, em fazer sacrifícios. Onde é que isso me trouxe? Exactamente onde estou agora. Não vale a pena. É prá estoura? Estoura-se já. Estou farto destes dramas económicos e de andar sempre a chafurdar no pântano. Assim ao menos sei porquê é que não tenho dinheiro.
Sempre a merda do dinheiro.
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